O mito da caverna
Gersivando - Bom, façamos então um apanhado geral, no que diz respeito à formação sentimental. Imagine-se levando uma pacata vida, desde a sua mais remota infância, numa caverna. Concomitantemente, você tem ao seu redor alguns espécimes femininos estonteantes... mas inacessíveis. Essas espécimes estão em uma forma bastante venenosa, cultivando aquilo a que chamam de vaidade, a todo instante. Atiçam a tudo e a todos, pois julgam ter nascido apenas para seduzir. Jovens, os inocentes e indefesos, acorrentados em sua imaturidade, não raro se percebem subindo pelas paredes, hipnotizados pelas formosas damas.
Glauco - Estou vendo.
Gersivando - Imagine então esses mesmos infantes, inocentes e febris, à medida em que NÃO se aproximam das estonteantes espécimes. Ao longo de sua formação, acorrentados que estão à caverna, têm apenas uma vaga idéia do veneno que elas são, de fato. Aceitam, pois, o fato de estarem cercados por estas espécimes estonteantes, e se se sentem em ebulição, desconfiam apenas o motivo, mesmo sem nunca tê-las tocado.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Gersivando - Assemelham-se a nós. Vide mídia, Internet, revistas masculinas. Bom, mas para começarmos, imagine que aos infantes caberiam senão essa realidade. Veneno e inacessibilidade. Pois, inocentes que são, imaturos e em formação, nada mais lhes restam senão as correntes, as paredes, e a conformação, pelo que não entendem mas sentem.
Glauco - Aos infantes então, e tomando por realidade as estonteantes espécimes, imaginemos uma caverna tomada de desejo, como se o mundo para eles fosse um mundo de desejos não saciados.
Sócrates - Sim.
Glauco - Foda hein.
Sócrates - Bem, não achas que os infantes tomariam por objetos reais as espécimes que vêem, e não podem tocar? Conformados que estão, em sua deprimente situação, nada poderiam fazer.
Glauco - É bem possível. Fadados estariam à tentação eterna, e nem perceberiam.
Gersivando - Concordo. E, se além disso, a acústica da caverna, de forma melodiosa e caliente, aos ouvidos dos infantes levasse senão as mais depravadas ladainhas? Estonteantes espécimes, anunciando alguns produtos de beleza, ou ainda sussrundo convites para um telefonema com cobrança internacional... não pensariam os infantes: - veneno!
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Convenhamos, tais infantes não atribuirão realidade à essa vida, evidentemente de volúpia? Fadados às paredes escaláveis? Até o fim de seus dias?
Glauco - Assim terá de ser.
Gersivando - Considera agora a aventura, por assim dizer, se a um desses infantes fosse concedida um esboço de liberdade. Uma liberdade condicional, onde o inocente infante se submeteria a algumas atividades. Um experimento, visando um deslumbramento posterior.
Glauco - Sim.
Gersivando - Atividades essas, imagine, como um beijo numa espécime estonteante! Consegue imaginar o pagode? O desvencilhamento das correntes, e a não necessidade de se escalar parede alguma. Afinal, um beijo, antes impensável, numa espécime que existe, que é palpável... não seria, para o infante, um revertério na realidade? No seu mundinho? Com novas e cativantes possibilidades!?
Glauco - Decerto. Apesar de ser apenas um beijo.
Gersivando - E se, para o bom andamento da atividade, fosse permitido ao infante um contato mais... digamos, efetivo com a espécime? Mas uma espécime não tão estonteante, dessa vez. Uma espécime meia-boca. Assaz alcunhada "feinha"... mas ainda palpável. Visando, não nos esqueçamos, apenas o deslumbramento posterior. É de se esperar que, no início, ele tente retesar seus sentimentos... mas ainda assim acabe acreditando na possibilidade de novas descobertas, não é mesmo? Em relação à palpabilidade.
Glauco - Com toda a certeza.
Gersivando - E se, para efetivos resultados, arrastassem o infante e a espécime não-estonteante-mas-palpável para um canto? E, sob métodos pouco ortodoxos, dessem início a um relacionamento, um pouco além do inocente beijo (essas espécimes costumam não perdem tempo). Se se mostrasse que as realidades dos fatos, que antes aos infantes transpareciam tão podadas, cerceadas, não eram assim tão restritivas?! Que a inacessibilidade não existe, de fato, se todos fossem um pouco mais flexíveis, por exemplo...
Glauco - Não o conseguirá aceitar, acredito. Afinal, é baranga.
Gersivando - Sim. Mas terá, creio eu, necessidade de se habituar à essa realidade, caso o deslumbramento seja mesmo cativante. Começará por perceber a existência de um mundo acessível, em detrimento de sua antiga realidade. Perceberá, meio que a contragosto no início, mas empolgado com as possibilidades que parecem aflorar, que a inacessibilidade pode até ser inata à espécimes estonteantes. Mas que outros espécimes, se se fazem notar, têm lá o seu lado "outstanding" também. São, por assim dizer, contempláveis, sob um olhar mais atento. Menos viciado como o dos acorrentados.
Glauco - Sem dúvida.
Gersivando - Por fim, suponho eu, será não apenas a palpabilidade, mas a essência bela, comum à todas as espécimes femininas, comum ao ser humano, que dará sentido à essa epifania sentimental. Que ser ou não estonteante, é algo muito relativo, e que existe algo além da triste realidade, que édesejar o que não se pode alcançar.
Glauco - Necessariamente.
Gersivando - Depois disso poderá concluir, a respeito das espécimes, que são elas é que se fazem estonteantes, frente ao intenso confronto entre suas fesceninas concorrentes. Mas que a essência, una, é a mesma em todas. A saber, a essência bela, sem nenhuma relação com a beleza física.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Gersivando - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza Gersivando.
Gersivando - E se, por um acaso, se distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, que existe algo além do mero admirar as estonteantes? E que por isso, em sendo o mais hábil, imaginando novos horizontes, provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um humilde, mas um guerreiro gari, e sofrer tudo no mundo das palpáveis? Do que voltar às antigas reclusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver daquela maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse infante volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente do contato com espécimes-palpáveis?
Glauco - Por certo que sim.
Gersivando - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para execrar as espécimes estonteantes, estando ainda sua vista confusa, e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à antigas escaladas nas paredes exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido à palpabilidade, voltou com o bom senso perturbado, pelo que não vale a pena tentar ir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o mundo das palpáveis, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Gersivando - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da reclusão na caverna, e a essência comum à todas as espécimes. Quanto ao experimento e à festa com as palpáveis, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e nos relacionamentos interpessoais.
Glauco - Concordo com a tua opinião.
Glauco - Estou vendo.
Gersivando - Imagine então esses mesmos infantes, inocentes e febris, à medida em que NÃO se aproximam das estonteantes espécimes. Ao longo de sua formação, acorrentados que estão à caverna, têm apenas uma vaga idéia do veneno que elas são, de fato. Aceitam, pois, o fato de estarem cercados por estas espécimes estonteantes, e se se sentem em ebulição, desconfiam apenas o motivo, mesmo sem nunca tê-las tocado.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Gersivando - Assemelham-se a nós. Vide mídia, Internet, revistas masculinas. Bom, mas para começarmos, imagine que aos infantes caberiam senão essa realidade. Veneno e inacessibilidade. Pois, inocentes que são, imaturos e em formação, nada mais lhes restam senão as correntes, as paredes, e a conformação, pelo que não entendem mas sentem.
Glauco - Aos infantes então, e tomando por realidade as estonteantes espécimes, imaginemos uma caverna tomada de desejo, como se o mundo para eles fosse um mundo de desejos não saciados.
Sócrates - Sim.
Glauco - Foda hein.
Sócrates - Bem, não achas que os infantes tomariam por objetos reais as espécimes que vêem, e não podem tocar? Conformados que estão, em sua deprimente situação, nada poderiam fazer.
Glauco - É bem possível. Fadados estariam à tentação eterna, e nem perceberiam.
Gersivando - Concordo. E, se além disso, a acústica da caverna, de forma melodiosa e caliente, aos ouvidos dos infantes levasse senão as mais depravadas ladainhas? Estonteantes espécimes, anunciando alguns produtos de beleza, ou ainda sussrundo convites para um telefonema com cobrança internacional... não pensariam os infantes: - veneno!
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Convenhamos, tais infantes não atribuirão realidade à essa vida, evidentemente de volúpia? Fadados às paredes escaláveis? Até o fim de seus dias?
Glauco - Assim terá de ser.
Gersivando - Considera agora a aventura, por assim dizer, se a um desses infantes fosse concedida um esboço de liberdade. Uma liberdade condicional, onde o inocente infante se submeteria a algumas atividades. Um experimento, visando um deslumbramento posterior.
Glauco - Sim.
Gersivando - Atividades essas, imagine, como um beijo numa espécime estonteante! Consegue imaginar o pagode? O desvencilhamento das correntes, e a não necessidade de se escalar parede alguma. Afinal, um beijo, antes impensável, numa espécime que existe, que é palpável... não seria, para o infante, um revertério na realidade? No seu mundinho? Com novas e cativantes possibilidades!?
Glauco - Decerto. Apesar de ser apenas um beijo.
Gersivando - E se, para o bom andamento da atividade, fosse permitido ao infante um contato mais... digamos, efetivo com a espécime? Mas uma espécime não tão estonteante, dessa vez. Uma espécime meia-boca. Assaz alcunhada "feinha"... mas ainda palpável. Visando, não nos esqueçamos, apenas o deslumbramento posterior. É de se esperar que, no início, ele tente retesar seus sentimentos... mas ainda assim acabe acreditando na possibilidade de novas descobertas, não é mesmo? Em relação à palpabilidade.
Glauco - Com toda a certeza.
Gersivando - E se, para efetivos resultados, arrastassem o infante e a espécime não-estonteante-mas-palpável para um canto? E, sob métodos pouco ortodoxos, dessem início a um relacionamento, um pouco além do inocente beijo (essas espécimes costumam não perdem tempo). Se se mostrasse que as realidades dos fatos, que antes aos infantes transpareciam tão podadas, cerceadas, não eram assim tão restritivas?! Que a inacessibilidade não existe, de fato, se todos fossem um pouco mais flexíveis, por exemplo...
Glauco - Não o conseguirá aceitar, acredito. Afinal, é baranga.
Gersivando - Sim. Mas terá, creio eu, necessidade de se habituar à essa realidade, caso o deslumbramento seja mesmo cativante. Começará por perceber a existência de um mundo acessível, em detrimento de sua antiga realidade. Perceberá, meio que a contragosto no início, mas empolgado com as possibilidades que parecem aflorar, que a inacessibilidade pode até ser inata à espécimes estonteantes. Mas que outros espécimes, se se fazem notar, têm lá o seu lado "outstanding" também. São, por assim dizer, contempláveis, sob um olhar mais atento. Menos viciado como o dos acorrentados.
Glauco - Sem dúvida.
Gersivando - Por fim, suponho eu, será não apenas a palpabilidade, mas a essência bela, comum à todas as espécimes femininas, comum ao ser humano, que dará sentido à essa epifania sentimental. Que ser ou não estonteante, é algo muito relativo, e que existe algo além da triste realidade, que édesejar o que não se pode alcançar.
Glauco - Necessariamente.
Gersivando - Depois disso poderá concluir, a respeito das espécimes, que são elas é que se fazem estonteantes, frente ao intenso confronto entre suas fesceninas concorrentes. Mas que a essência, una, é a mesma em todas. A saber, a essência bela, sem nenhuma relação com a beleza física.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Gersivando - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza Gersivando.
Gersivando - E se, por um acaso, se distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, que existe algo além do mero admirar as estonteantes? E que por isso, em sendo o mais hábil, imaginando novos horizontes, provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um humilde, mas um guerreiro gari, e sofrer tudo no mundo das palpáveis? Do que voltar às antigas reclusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver daquela maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse infante volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente do contato com espécimes-palpáveis?
Glauco - Por certo que sim.
Gersivando - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para execrar as espécimes estonteantes, estando ainda sua vista confusa, e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à antigas escaladas nas paredes exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido à palpabilidade, voltou com o bom senso perturbado, pelo que não vale a pena tentar ir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o mundo das palpáveis, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Gersivando - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da reclusão na caverna, e a essência comum à todas as espécimes. Quanto ao experimento e à festa com as palpáveis, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e nos relacionamentos interpessoais.
Glauco - Concordo com a tua opinião.
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